19 de março de 2010











AINDA HÁ VIDA...

E decorre com toda a languidez desse imenso Baixo Alentejo.
De cada vez que se pensa num lugar assim, assoma o lugar-comum "O Tempo Passa Devagar".
Não é que seja mentira, é apenas a única percepção que consegue ter quem vem de um lugar onde o tempo é um bem precioso.
Não aqui.
No Beringelinho, o tesouro é outro.
Chama-se silêncio.
Que pode ser, de sol a pino, o coro de mil aves invisíveis e, à noite, o sibilo de insectos em torno dos candeeiros de iluminação pública e os passos apressados das osgas, gordas, bonacheironas, precipitando-se sobre eles.
No Beringelinho, há quem nos convide a entrar em casa para ver a horta de gigantescas couves galegas e pêssegos de promissora suculência.
Há um bando de andorinhas em desordeiro banquete aéreo.
Há, do largo, vistas imensas sobre os tons pastel desse imenso Celeiro de Portugal, onde arribam, todos os anos, as abetardas, e de onde as cegonhas já não partem.
Há corujas das torres sob telhados centenários.
Há uma Sociedade Recreativa de onde se vê o carro que chega, de muito em muito tempo, e por onde terá de partir, porque este é um ponto final na história dos lugares que, por serem de passagem, mais tarde ou mais cedo se fazem um qualquer lugar sem poesia.
Há um ninho de pintassilgo num plátano de pobre folhagem, mas eleito de entre tantas árvores frondosas, apenas porque Isto é passarada que gosta da nossa companhia!
Há este aroma que anuncia o Verão.
Há a ameaça de trevoada.
Há amor à terra.
Como só amor se pode dar a esta gente!
Que são os portugueses de verdade...
... sem se julgar donos dela!

Texto Nuno Miguel Dias
Fotografias Zito Colaço

1 de março de 2010

Sahara - O grande deserto









FOI EM ÁFRICA QUE TUDO COMEÇOU

Esta é uma frase que hoje em dia é tida quase como um cânone paradigmático tanto em Arqueologia como em Antropologia.

É de história africana que se vai falar, quando a zona norte do grande continente era ocupada por vasta savana, com rios que a alimentavam e a tornavam possuidora de vasta fauna.

Populações de caçadores-recolectores percorreram na savana, deixando na pedra testemunho dessa passagem, assim como dos animais que ai existiam. As épocas vão passando e o pastoreio de bovídeos e ovicaprídeos acrescenta-se uma parca agricultura de gramíneas em sítios localizados o que permite acrescentar um pouco mais de diversidade à dieta alimentar destes povos nómadas e transumantes.

Também eles irão deixar o seu testemunho na pedra e assim perpetuar a sua memória, como se pode observar nas gravuras rupestres de Gleb Terzug, no Tassili N`Ajjer, Fezzan, Adrar ou em Garer El Djenoun e especialmente em Rekeyeiz.

Esta é a traços gerais a génese da Pré-História do Sahara, contudo seria de grande imprudência generalizar estes factos a todo o território, das costas marroquinas até à fronteira Líbio-egípcia. Existiram claro, derivações regionais e outras especificações que irão permitir o surgimento de características próprias permitindo assim, o individualizar das regiões.

O Sahara Ocidental não foi uma exepção nesta época. Também aqui, existiu em tempos fauna variada, desde leões, girafas, rinocerontes, hipópotamos e crocodilos nos seus rios. Assim como antílopes, gazelas e órix. Este testemunho é-nos deixado pelas gravuras de Slugilla, podendo estas ser enquadradas no estilo bovideano de caracterização da arte rupestre sahariana.

A figura humana também é representada, em vários estilos e ocupações.

As condições climatéricas mudam, a paisagem acompanha essas mudanças e gradualmente, vai surgindo o deserto sahariano que hoje se conhece. Assim também as populações humanas aí presentes tiveram que se adaptar, tendo para isso, por volta de 3.000 A.C., domesticado um animal que tem revelado um aliado preciosissímo para a sobrevivência no deserto, o dromedário.

No entanto, a imagem romântica de mares de dunas sem fim, não podia estar mais distante. É certo que estas constituem uma parte apreciável do deserto. Mas este, não se esgota neste aspecto, pelo contrário. Extensas planícies de calhaus interrompidas por altiplanos e formações rochosas de granito negro, rasgam a continuidade da paisagem, como se observa em El Tiris.

A evolução é contínua, assim como a progressão humana. Novos grupos humanos aparecem no antigo território de outros e tudo isso contribui para a formação e individualização de um povo.

Também assim foi com os Saharauis. Se por um lado, os génes das antigas tribos berberes, praticantes de um nomandismo, constituem grande parte da herança genética, esta também tem em si um não menos importante legado árabe(Séc.VIII) e africano.

Mas um povo, não é só evolução histórica e contacto com os outros. É toda a envolvência com a paisagem onde se insere, o modo como esta o modela e faz com que se adapte a ela. Criando uma cultura única e própria.

Certo que, uma cultura, nunca existe num plano singular, tem sempre pontos de contacto mais alargados dentro de grupos culturais mais vastos e abrangentes. Mas isso, só serve para a fortalecer e dar-lhe o seu carácter próprio.

No entanto, como atrás foi referido, existe sempre a caracterização específica, seja devido a modulações regionais, seja por evolução dentro de um grupo social. O que se pretender sublinhar, é se os Saharauis podem ser enquadrados num grupo específico de populações saharianas, as individualizações fazem deles um povo único, cuja cultura merece todo o respeito e determinação.

Texto Carlos Didelet Vasquez
Fotografias Zito colaço

17 de fevereiro de 2010

Serra da Tronqueira, S.Miguel/Açores, Portugal.






ACIDENTE GEOLÓGICO

A Serra da Tronqueira é uma elevação Portuguesa localizada no concelho do Nordeste da ilha de S.Miguel, nos Açores. Este acidente geológico tem o seu ponto mais elevado a 906 metros de altitude acima do nível do mar. É nos contrafortes desta serra e no Pico da Vara que se encontra o Priolo, passiforme em vias de extinção, com a designação científica de Pyrrhula murina. Este pássaro que até aos príncipios de 2007 apenas podia ser observado nas emidiações desta serra e no já mencionado Pico da Vara. Em 2008, este magnífico pássaro foi observado a menores altitudes, graças aos cuidados de protecção que lhe têm sido aplicados. Aqui localiza-se também o Centro Ambiental do Priolo, situado na localidade da Pedreira.
Nas suas imediações localiza-se o Pico Bartolomeu, e na extremidade oposta o Outeiro Alto. Nas encostas desta serra, nasce a Ribeira de Tosquiada e alguns afluentes da Ribeira do Guilherme ou Ribeira dos Moinhos, como também é conhecida.

Fotografias Zito Colaço

1 de fevereiro de 2010

A Beringela


OS HOMENS FAZEM MÁ VIZINHANÇA

Os problemas da convivência entre determinadas espécies animais e comunidades humanas é tão antiga como a própria humanidade. Homem e Besta sempre se cruzaram através de milénios, ora sob "tratados" de coexistência pacífica, ora mediante guerra declarada. A banalidade de tais ocorrências fez com que a História Universal as tivesse ignorado por completo. Considerou disputas entre humanos, fossem elas territoriais, raciais ou, mais recentemente, económicas, nascimentos e mortes de tantas e tantas civilizações mas, da má vizinhança entre o homem e o animal selvagem, tratou a tradição oral. No imaginário de qualquer povo que habite, há muito, determinado território, espraiam-se as estórias contadas de geração em geração e que nos foram ensinando, de forma inegável, a lidar com as espécies. O mesmo se aplica aos animais que, tantos milénios depois, sabem que deverão, a todo o custo, evitar-nos. Temem-nos. E têm boas razões para isso. O que faz com que não seja muito difícil de concluir que, hoje em dia, os reencontros sejam, o mais das vezes, mau sinal. O Homem invade, cada vez mais, o território da bicharada e estes não têm outro remédio que não mostrarem-se, ou às suas acções. Que, aos nossos olhos, são sempre más. Quando, em África, uma manada de elefantes destrói o campo de milho de uma aldeia ou, no Gerês, uma alcateia dizima um quarto do rebanho do pastor, a reacção desencadeada é practicamente idêntica. O instinto de sobrevivência próprio dos animais passa a aplicar-se ao homem que, salvo uma educação ambiental em contrário, trata de fazer justiça pelas próprias mãos. Mas isto é uma questão complexa cuja a análise não deverá ser feita apenas de um prisma ambientalista quando estão, também, em causa variáveis sociais.

Quando, porém, alguém mata, à paulada, ou ao pontapé, um animal tão inofensivo como a lontra, é apenas tacanhês, estupidez, idiotice e imbecilidade. Obra de um qualquer labrêgo, porque estamos a falar do sul e há que fazermo-nos compreender. A pulga dá comichão, a mosca é incomodativa durante uma sardinhada, o pardal empobrece a sementeira, a coruja é bicho de mau-agoiro, o gato é incomodativo quando está com o cio mas...uma lontra? Por amor da Santa do altar de qualquer igreja de Santo André, a lontra não espalha doenças, não assalta galinheiros na calada da noite, nem sequer se deixa ver, quanto mais morder-nos os tornozelos? Ainda por cima, e porque a falta de inteligência traz consigo, geralmente, consequências, a lontra era a Beringela, noticiada em Portugal inteiro por tratar-se da primeira da sua espécie a ser recuperada pelo Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Santo André, (foi encontrada no interior de uma caixa-armadilha numa reserva de caça em Outubro último) e libertada, próximo do mesmo local, após duas semanas de recuperação. Como tal, e para que se pudesse monitorizar não só a sua readaptação ao meio mas também os seus hábitos alimentares, foi-lhe colocada uma mochila com um emissor GPS. Foi esse que levou à série de insólitos que se seguiram. À estranheza causada pelo facto do sinal ser, há vários dias, emitido sempre do mesmo local, correspondente a uma povoação próxima da localização da libertação do animal, a equipa do CRASSA fez-se ao caminho. Para concluir que o lugar exacto era, afinal, um contentor de lixo.
Este cenário só poderia indicar que, afinal, Beringela perdera a mochila, alguém a encontrara e, naturalmente, ignorando do que se tratava, destinou-lhe um fim mais óbvio. E sim, o equipamento emissor estava no interior do contentor mas, pasme-se, a Beringela também, envolvida em sacos plásticos. A necrópsia, levada a cabo pela Universidade de Évora, provou, mais que a evidente presença de sangue na pele, pêlo da cabeça e fossas nasais, também a fractura do osso frontal e ambos os parietais, a presença de extenso hematoma nessas mesmas áreas da caixa craniana e, claro, consequente destruição de massa encefálica. A presença de lagostins e alguns peixes no estômago indicavam que se estava a adaptar bem ao meio. A sua morte indica que há gente que, bem adaptada ao meio, tem a barriga cheia da mais negra peste dos homens, a ignorância.

Conclusão Bilma nº 1 - Não se julgue que os sintomas de terceiro-mundismo têm apenas a ver com factores económicos.

Conclusão Bilma nº 2 - Não se julgue que apenas os animais agem como tal.


Fotografia Quercus
Texto Nuno Miguel Dias